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Santa Cecília

Santa Cecília, protetora e padroeira dos músicos, sofreu o martírio nos primeiros tempos do cristianismo. Enfrentou os duros tempos de perseguição aos cristãos, sempre tocando sua harpa ou cítara para acompanhar suas melodiosas canções. Era este seu modo de expressar aquele amor de Deus que abrasava sua alma pura e virginal.

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Uma alma contemplativa

Nascida em uma nobre família romana que se convertera ao cristianismo, desde muito menina, Cecília via as belezas do universo como símbolo da grandeza de Deus. Alma contemplativa, vendo o nascer ou o pôr-do-sol, as estrelas ou mesmo as variações das estações, mantinha o espírito voltado para Deus e exclamava. “Oh! Quão grande e bom é o Senhor! Quero amá-Lo sempre. Quero amá-Lo, muito!…”

Seu amor a Jesus Sacramentado era tão grande que, quando O recebeu pela primeira vez das mãos do Papa Urbano I, na Catacumba de São Calixto, renovou a consagração de sua pureza e virgindade a seu Divino Esposo.

Algum tempo depois, oficializou seu voto nas mãos do Pontífice. Ele relutou em aceitar tal oferecimento, por perten­cer a jovem donzela a família tão importante e ser filha única.

Mudanças na vida da menina

Com a morte de seus pais, Cecília, ainda menor de idade, ficou sob a tutela de parentes pagãos. Estes procuravam minimizar seu sofrimento distraindo-a, levando-a aos divertimentos públicos e forçando o seu convívio com outros parentes e amigos.

Temendo que tais ambientes maculassem sua alma inocente e amante a Deus, Cecília se refugiava na solidão de seu coração e cantava a Deus seu amor. 

Prometida por seus tutores a Valeriano, um dos jovens mais elegantes da nobreza de Roma, Cecília buscou o Santo Padre, dizendo-lhe que teria de se declarar cristã diante de todos, para poder cumprir sua promessa de castidade e virgindade. O Papa, iluminado por Deus e com a sabedoria de Vigário de Cristo, deu-lhe o conselho de ter prudência e encomendar-se à Santíssima Virgem.

No dia da celebração do matrimônio, a jovem passou todo o tempo em oração. No momento da festa, enquanto tocavam os concertos profanos de suas núpcias, Cecília cantava um hino de amor a Jesus em seu coração e pedia a divina proteção para ser fiel à entrega que fizera a Nosso Senhor.

A conversão de Valeriano

Estando a sós com seu esposo, Cecília revelou-lhe seu segredo: havia se entregado a Jesus Cristo como esposa e, se ele quisesse tocá-la, seu Anjo, que a acompanhava dia e noite, a defenderia.

A princípio Valeriano não deu crédito a tal revelação e julgou que sua jovem e bela mulher o havia traído. Mas era tal a inocência e sinceridade dela que, movido pela graça, começou a crer em suas palavras. Cecília lhe disse que, se ele fosse tocado pelas santas águas do Batismo, poderia ver o Anjo da Guarda de­la, e deu-lhe todas as indicações para procurar o Papa Urbano, nas catacumbas.

Valeriano saiu e encontrou-se com os cristãos que Cecília lhe indicara. Ela permaneceu no palácio rezando, cantando e tocando a cítara, pedindo a Deus a graça da conversão de seu nobre esposo.

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De fato, ele se converteu e se fez batizar. Quando regressou, encontrou sua esposa em oração, tendo junto de si um belo Anjo, que trazia nas mãos duas coroas de rosas e lírios perfumados. O Anjo depositou as coroas nas cabeças do ca­sal, dizendo: “Conservai essas coroas com a pureza de vossos corações e santidade de vossos corpos; elas vieram do céu e nunca perderão sua frescura. Ficarão sempre perfumadas como agora, mas nenhum mortal poderá vê-las nem admirar suas belezas, senão depois de ter, como vós, merecido os favores do Altíssimo com a virtude da castidade.”

E, por ter respeitado Cecília como esposa de Nosso Senhor, o Anjo disse que Valeriano poderia lhe pedir um favor que Deus lhe concederia. Ele pediu, então, a conversão de seu irmão Tibúrcio.

Com efeito, Tibúrcio se converteu, à semelhança de Valeriano, recebendo também do Anjo uma coroa de rosas e lírios celestiais, e a nobre casa dos Valérios passou a ser uma santa casa cristã, na qual sempre reinou a caridade para com os pobres e necessitados.

Naqueles salões tantas vezes profanados por cantos pagãos, passaram a res­soar hinos e louvores ao Deus verdadeiro, acompanha­dos do delicado som da lira, tangida pelos dedos ágeis de Cecília.

A perseguição contra os cristãos

Passou-se o tempo e, com a ausência do Imperador romano, no ano 232, o prefeito que governava em seu lugar começou uma terrível perseguição contra os cristãos. Reconhecidos como tais, Valeriano e Tibúrcio, que se dedicavam a recolher os restos de seus companheiros martirizados, receberam também eles a palma do martírio, mas não sem antes conseguir a conversão dos seus perseguidores mais diretos: Máximo e seus soldados.

O martírio de Santa Cecília

Cecília, avisada, previu que seria ela a próxima vítima da cruel perseguição. Distribuiu todos os seus bens e entregou seu palácio ao Papa, para ser transformado numa igreja. Capturada, deixou seu perseguidor furioso com suas sábias respostas cheias de fé e de amor a Deus, e foi condenada a morrer sufocada pelos vapores das caldeiras do próprio palácio.

Depois de um dia e uma noite dentro de um recinto hermeticamente fechado, foi ela encontrada viva, cantando e sorrindo, em meio a um ar fresco.

Decidiu-se, então, que devia morrer decapitada. Mas o carrasco, ao ver aquela jovem que, com a fortaleza de um guerreiro que entra no campo de batalha, oferecia o pescoço com tanto desejo de morrer, vacilou… deu-lhe um gol­pe, mas não a matou.

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Depois um segundo e um terceiro golpe, sofrendo Cecília feridas tremendas. A santa caiu, mas a cabeça continuou prodigiosamente unida ao corpo. A lei romana proibia dar um quarto golpe e o carrasco, cheio de espanto, fugiu.

Três dias passou Cecília entre a vida e a morte, sendo afinal encontrada pelos cristãos, que se apressaram em chamar o Papa. Este ainda teve tempo de ministrar-lhe os últimos sacramentos. Para manifestar sua fé na Unidade e Trindade de Deus, Santa Cecília mostrava àqueles que a assistiam o polegar de uma mão e três dedos de outra. Depois inclinando a cabeça, expirou.

Seu palácio é hoje a bela Igreja de Santa Cecília, no Trastévere, em Roma. Seu corpo foi encontrado em 821, pelo Papa São Pascoal, junto dos despojos de Valeriano, Tibúrcio, Máximo e Urbano I. Estava ela tal qual fora sepultada pelo Papa, com sua bela túnica tecida de ouro e trazendo o cilício que nunca abandonara.

Melodia celestial

Continua Santa Cecília ao longo dos séculos a cantar, nos céus, a melodia de seu amor a Deus, cujos ecos res­soam na Terra, atraindo ao Criador as almas dos músicos, seus protegidos, bem como as de todos os seus devotos. Santa Teresinha do Menino Jesus, virgem como Cecília, soube bem compreendê-la. A seu respeito deixou-nos o seguinte comentário: “Santa Cecília se assemelha à Esposa dos Cantares; sua vida foi apenas um canto melodio­so, mesmo em meio das maiores provações, e isso se compre­ende, porque o Evangelho descansava sobre seu peito, e den­tro de seu coração repousava o Esposo das Virgens, o aman­te por excelência.”


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